1. Início
  2. Vídeos
  3. Gelo sem geladeira

Como faziam gelo sem geladeira?

No século 16 já havia gente tomando água gelada em pleno calor. O segredo estava num pó usado para fazer pólvora.

Vídeo de 1:02 e leitura de 4 minutos Publicado em 26 de outubro de 2026

Imagine o ano de 1580. Calor de quarenta graus, nenhuma geladeira no mundo e, mesmo assim, gente tomando água gelada. Parece truque, mas era química, e o ingrediente principal era o mesmo pó branco que ia na pólvora: o salitre.

O pó da pólvora

Salitre é o nome popular do nitrato de potássio. Ele era conhecido principalmente por um motivo: misturado com carvão e enxofre, vira pólvora. Mas o salitre tem uma propriedade bem menos explosiva e muito útil em dia de calor: quando se dissolve na água, ele deixa a água mais fria.

A água gelada do imperador Akbar

Um dos registros mais conhecidos vem da Índia, do fim do século 16. O Ain-i-Akbari, escrito por Abu'l-Fazl sobre a corte do imperador Akbar, descreve o método: a água para beber ia num jarro de metal bem fechado, e esse jarro era girado dentro de uma bacia com salitre e água. Em cerca de quinze minutos, a água do jarro estava fresca.

O jarro fechado era o pulo do gato. A água de beber nunca tocava o salitre: ela só perdia calor pela parede de metal para a mistura gelada do lado de fora.

Por que o salitre esfria a água

Para se dissolver, o salitre precisa separar as partículas que formam os seus cristais, e isso gasta energia. Essa energia vem da própria água, na forma de calor. A água entrega calor para o salitre que está se dissolvendo e, por isso, esfria. Os químicos chamam isso de dissolução endotérmica: um processo que absorve calor em vez de liberar.

O detalhe que muita gente erra

Muitos vídeos na internet dizem que antigamente se fazia gelo só com salitre e água. Não é bem assim. A mistura esfria alguns graus (um jornal de 1892 fala em cerca de 8 °C a menos) e para por aí. Dá para gelar uma bebida, mas não para congelar a água. Para chegar abaixo de zero era preciso outro ingrediente.

Gelo de verdade: salitre com neve

Na Itália, no fim do século 16, o estudioso Giambattista della Porta descreveu no livro Magia Naturalis um experimento que fez sucesso: ele misturou salitre com neve num balde de madeira e girou ali dentro um frasco com vinho. A mistura ficou mais fria que a própria neve, abaixo de zero, e o vinho congelou.

A explicação junta duas coisas. O sal (ou o salitre) faz a neve derreter mesmo abaixo de zero, e derreter também consome calor. Ao mesmo tempo, o salitre que se dissolve tira mais calor ainda. Resultado: a mistura passa do ponto de congelamento da água pura.

Do balde de gelo ao sorvete

Logo se descobriu que o sal de cozinha também servia, e funciona até melhor: gelo com sal pode chegar a cerca de 20 graus abaixo de zero. Esse truque de balde, gelo e sal abriu caminho para as sobremesas geladas. As sorveteiras de manivela do século 19 usavam exatamente isso: um recipiente com o creme, cercado por gelo e sal.

O mesmo princípio na farmácia

A ideia continua viva. Muitas bolsas de gelo instantâneo vendidas em farmácia têm por dentro água e um sal separados por uma película, geralmente nitrato de amônio. Ao apertar a bolsa, a película se rompe, o sal se dissolve e a bolsa esfria em segundos, pelo mesmo motivo que o salitre gelava a água de Akbar.

Um pó da pólvora que gela a água. A química é mais estranha do que parece.

Mais vídeos do curiolab.tv