Como faziam gelo sem geladeira?
No século 16 já havia gente tomando água gelada em pleno calor. O segredo estava num pó usado para fazer pólvora.
Imagine o ano de 1580. Calor de quarenta graus, nenhuma geladeira no mundo e, mesmo assim, gente tomando água gelada. Parece truque, mas era química, e o ingrediente principal era o mesmo pó branco que ia na pólvora: o salitre.
O pó da pólvora
Salitre é o nome popular do nitrato de potássio. Ele era conhecido principalmente por um motivo: misturado com carvão e enxofre, vira pólvora. Mas o salitre tem uma propriedade bem menos explosiva e muito útil em dia de calor: quando se dissolve na água, ele deixa a água mais fria.
A água gelada do imperador Akbar
Um dos registros mais conhecidos vem da Índia, do fim do século 16. O Ain-i-Akbari, escrito por Abu'l-Fazl sobre a corte do imperador Akbar, descreve o método: a água para beber ia num jarro de metal bem fechado, e esse jarro era girado dentro de uma bacia com salitre e água. Em cerca de quinze minutos, a água do jarro estava fresca.
O jarro fechado era o pulo do gato. A água de beber nunca tocava o salitre: ela só perdia calor pela parede de metal para a mistura gelada do lado de fora.
Por que o salitre esfria a água
Para se dissolver, o salitre precisa separar as partículas que formam os seus cristais, e isso gasta energia. Essa energia vem da própria água, na forma de calor. A água entrega calor para o salitre que está se dissolvendo e, por isso, esfria. Os químicos chamam isso de dissolução endotérmica: um processo que absorve calor em vez de liberar.
O detalhe que muita gente erra
Muitos vídeos na internet dizem que antigamente se fazia gelo só com salitre e água. Não é bem assim. A mistura esfria alguns graus (um jornal de 1892 fala em cerca de 8 °C a menos) e para por aí. Dá para gelar uma bebida, mas não para congelar a água. Para chegar abaixo de zero era preciso outro ingrediente.
Gelo de verdade: salitre com neve
Na Itália, no fim do século 16, o estudioso Giambattista della Porta descreveu no livro Magia Naturalis um experimento que fez sucesso: ele misturou salitre com neve num balde de madeira e girou ali dentro um frasco com vinho. A mistura ficou mais fria que a própria neve, abaixo de zero, e o vinho congelou.
A explicação junta duas coisas. O sal (ou o salitre) faz a neve derreter mesmo abaixo de zero, e derreter também consome calor. Ao mesmo tempo, o salitre que se dissolve tira mais calor ainda. Resultado: a mistura passa do ponto de congelamento da água pura.
Do balde de gelo ao sorvete
Logo se descobriu que o sal de cozinha também servia, e funciona até melhor: gelo com sal pode chegar a cerca de 20 graus abaixo de zero. Esse truque de balde, gelo e sal abriu caminho para as sobremesas geladas. As sorveteiras de manivela do século 19 usavam exatamente isso: um recipiente com o creme, cercado por gelo e sal.
O mesmo princípio na farmácia
A ideia continua viva. Muitas bolsas de gelo instantâneo vendidas em farmácia têm por dentro água e um sal separados por uma película, geralmente nitrato de amônio. Ao apertar a bolsa, a película se rompe, o sal se dissolve e a bolsa esfria em segundos, pelo mesmo motivo que o salitre gelava a água de Akbar.
Um pó da pólvora que gela a água. A química é mais estranha do que parece.